Vladímir Ilich Uliánov LENINE
Que fazer?
Problemas candentes do nosso
movimento
V
«PLANO» DE UM JORNAL POLÍTICO PARA TODA A RÚSSIA
b) Pode um jornal ser um organizador colectivo?
A chave do artigo Por onde Começar? é por precisamente esta questom e resolvê-la pola afirmativa. A única pessoa que, polo que conhecemos, tentou analisar a questom quanto ao fundo e provar a necessidade de a resolver de modo negativo foi L. Nadéjdine, cujos argumentos reproduzimos na íntegra:
« ... Muito nos agrada que o Iskra (nº 4) coloque a questom da necessidade de um jornal para toda a Rússia, mas nom podemos de maneira algumha estar de acordo que esta maneira de pôr o problema corresponda ao título do artigo Por onde Começar?. É sem dúvida um dos assuntos de extrema importáncia, mas nom é com isso nem com toda umha série de panfletos populares, nem com umha montanha de proclamaçons que se podem criar os fundamentos de umha organizaçom de combate para um momento revolucionário. É indispensável começar a formar fortes organizaçons políticas locais, nom as temos, o nosso trabalho desenvolveu-se sobretudo entre os operários cultos, enquanto as massas travavam quase exclusivamente a luita económica. Se nom se educam fortes organizaçons políticas locais, que valor poderia ter um jornal para toda a Rússia, mesmo que esteja excelentemente organizado? umha silva ardente que arde sem se consumir, mas que a ninguém transmite o seu fogo! O Iskra crê que em torno desse jornal, no trabalho para ele, se concentrará o povo, se organizará. Mas como lhe é muito mais fácil concentrar-se e organizar-se em torno de um trabalho mais concreto! Este trabalho pode e deve ser o de organizar jornais locais em vasta escala, o de preparar imediatamente as forças operárias para manifestaçons, o de levar as organizaçons locais a trabalhar constantemente entre os desempregados (difundindo persistentemente entre eles folhas volantes e panfletos, convocando-os para reunions, exortando-os à resistência ao governo, etc,). É preciso dar início a um trabalho politico vivo no plano local, e quando surgir a necessidade de unificaçom nesta base real, a uniom nom será algo de artificial, nom ficará no papel. Porque nom é com jornais que se conseguirá esta unificaçom do trabalho local numha obra comum a toda a Rússia! (Em Vésperas da Revoluçom, p. 54.).
Sublinhamos nesta tirada eloqüente as passagens que permitem apreciar com maior relevo tanto a opiniom errada do autor sobre o nosso plano, como, em geral, o falso ponto de vista que ele opom ao Iskra. Se nom se educam fortes organizaçons políticas locais, nom terá valor o melhor jornal destinado a toda a Rússia. Completamente justo, mas trata-se precisamente de que nom existe outro meio para educar fortes organizaçons políticas senom um jornal para toda a Rússia. O autor nom notou a declaraçom mais importante do Iskra, feita antes de passar a expor o seu «plano»: a declaraçom de que era necessário «apelar para a formaçom de umha organizaçom revolucionária capaz de unir todas as forças e de dirigir o movimento, nom só de umha maneira nominal, mas na realidade, quer dizer, capaz de estar sempre disposta a apoiar todo o protesto e toda a explosom, aproveitando-os para multiplicar e robustecer as forças de combate aptas para a batalha decisiva». Mas agora, depois de Fevereiro e Março, todos estarám em princípio de acordo com isso –continua o Iskra–, e o que nós precisamos nom é de resolver o problema em princípio, mas sim na prática; é necessário estabelecer imediatemente um plano determinado para a construçom, para que todos podam, agora mesmo e de todos os lados, iniciar a construçom. E eis aqui que nos arrastam mais umha vez da soluçom prática do problema para trás, para umha verdade em princípio justa, inconstestável, grande, mas completamente insuficiente, completamente incompreensível para as grandes massas trabalhadoras: para a «educaçom de fortes organizaçons políticas»! Mas nom é disso que se trata, respeitável autor, mas de como, precisamente, há que educar, e educar com êxito!
Nom é verdade que o «nosso trabalho se desenvolveu sobretudo entre os operários cultos; enquanto as massas travavam quase exclusivamente a luita económica». Sob esta forma, a tese desvia-se para a tendência, habitual no Svoboda e radicalmente errada, de opor os operários cultos à «massa». Pois, nestes últimos anos, também os operários cultos do nosso país travárom «quase exclusivamente a luita eeonómica». Isto, por um lado. Por outro, tampouco as massas aprenderám jamais a travar a luita política enquanto nós nom ajudarmos à formaçom dos dirigentes para esta luita, procedentes tanto dos operários cultos coma dos intelectuais; e estes dirigentes podem formar-se, exclusivamente, iniciando-se na apreciaçom sistemática e quotidiana de todos os aspectos da nossa vida política; de todas as tentativas de protesto e de luita das diferentes classes e por diferentes motivos. Por isso, falar de «educar organizaçons políticas» e, ao mesmo tempo, opor o «trabalho da papelada» de um jornal político ao «trabalho político vivo no plano local» é simplesmente ridículo! Mas se o Iskra adapta precisamente o seu «plano» de um jornal ao «plano» de criar umha «preparaçom combativa» que poda apoiar tanto um movimento de desempregados, um levantamento de camponeses, como o descontentamento dos zémtsi, «a indignaçom da populaçom contra os bachibuzuques 123 tsaristas cheios de soberba», etc. Além disso, qualquer pessoa familiarizada com o movimento sabe muito bem que a imensa maioria das organizaçons locais nem sequer pensa nisto; que muitas das perspectivas aqui esboçadas de «um trabalho político vivo» nom fôrom aplicadas na prática nem umha só vez por nengumha organizaçom; que, por exemplo, a tentativa para chamar a atençom para o recrudescimento do descontentamento e dos protestos entre os intelectuais dos zemstvos origina um sentimento de confusom e perplexidade tanto em Nadéjdine («Meu Deus! mas será esse órgao para os zémtsi?» Em Vésperas, p. 129) como nos «economistas» (ver a carta no nº 12 do Iskra), como em muitos militantes práticos. Nestas condiçons, pode-se unicamente «começar» por incitar as pessoas a pensar em tudo isto, a resumir e sintetizar todos e cada um dos indícios de efervescência e de luita activa. Em momentos destes, em que se rebaixa a importáncia das tarefas social-democratas, o «trabalho político activo» só pode iniciar-se exclusivamente por umha agitaçom política viva, cousa impossível sem um jornal para toda a Rússia, que apareça freqüentemente e se difunda com regularidade.
Aqueles que consideram o «plano» do Iskra como umha manifestaçom de «literatismo» nom compreendêrom de modo algum a própria essência do plano, tomando como fim o que se propom como meio mais adequado para o momento presente. Esta gente nom se deu ao trabalho de reflectir sobre duas comparaçons que ilustram claramente o plano proposto. A organizaçom de um jornal político para toda a Rússia –escrevia-se no Iskra– deve ser o fio fundamental, seguindo o qual podemos invariavelmente desenvolver, aprofundar e alargar esta organizaçom (isto é, a organizaçom revolucionária, sempre disposta a apoiar todo o protesto e toda a explosom). Façam o favor de nos dizer: quando os pedreiros colocam em diferentes pontos as pedras de um edifício enorme e sem precedentes, será um trabalho «de papelada» esticar um fio que os ajuda a encontrar o lugar justo para as pedras, que lhes indica a finalidade da obra comum, que lhes permite colocar nom só cada pedra, mas mesmo cada bocado de pedra, que, ao somar-se aos precedentes e aos seguintes, formará a linha acabada e total? E nom vivemos nós, por acaso, um momento desta índole na nossa vida de partido, quando temos pedras e pedreiros, mas nos falta precisamente o fio, visível a todos e polo qual todos se podem guiar? nom importa que gritem que, ao esticarmos o fio, o que queremos é mandar: se assim fosse, senhores, poríamos Rabotchaia Gazeta nº 3 em vez de Iskra nº 1, como nos propugérom alguns camaradas e como teríamos pleno direito de fazer depois dos acontecimentos atrás relatados. Mas nom o figemos; queríamos ter as maos livres para desenvolver umha luita intransigente contra todo o tipo de pseudo-social-democratas queríamos que o nosso fio, se está justamente esticado, fosse respeitado pola sua justeza, e nom por ter sido esticado por um órgao oficial.
«A questom de unificar as actividades locais em órgaos centrais move-se num círculo vicioso –di-nos sentenciosamente L. Nadéjdine–. A unificaçom requer homogeneidade de elementos, e esta homogeneidade nom pode ser criada senom por um aglutinador, mas este aglutinador só pode aparecer como produto de fortes organizaçons locais, que, neste momento, nom se distinguem de maneira algumha pola sua homogeneidade.» Verdade tam respeitável e tam incontestável como a de que é necessário educar fortes organizaçons políticas. E nom menos estéril do que esta. Toda a questom «se move num círculo vicioso», pois toda a vida política é umha cadeia sem fim, composta de umha série infinita de elos. Toda a arte de um político consiste precisamente em encontrar e agarrar-se com força precisamente ao elozinho que menos lhe poda ser arrancado das maos, que seja o mais importante num dado momento e que melhor garanta ao seu possuidor a posse de toda a cadeia 124. Se tivéssemos um destacamento de pedreiros experimentados, que trabalhassem de modo tam harmónico que, mesmo sem o fio, pudessem colocar as pedras precisamente onde é necessário (falando abstractamente isto nom é de modo algum impossível), poderíamos talvez agarrarmo-nos também a um outro elo. Mas a infelicidade consiste precisamente em ainda termos necessidade de pedreiros experimentados e que trabalhem de modo tam harmónico, em as pedras serem colocadas freqüentemente ao acaso, sem serem alinhadas polo fio comum, de forma tam desordenada que o inimigo as dispersa com um sopro como se fossem graos de areia e nom pedras.
Outra comparaçom: «O jornal nom é apenas um propagandista colectivo e um agitador colectivo, mas também um organizador colectivo. Neste último sentido, pode ser comparado aos andaimes que se levantam à volta de um edifício em construçom, marcando-lhe os contornos, facilitando as comunicaçons entre os construtores, ajudando-os a repartir entre si o trabalho e a observarem os resultados gerais alcançados polo trabalho organizado.» 125 Isto fai pensar –nom é verdade?– no literato, no homem de gabinete, exagerando a importáncia do seu papel. Os andaimes nom som imprescindíveis para a própria casa: som feitos com um material de qualidade inferior, som utilizados durante um período relativamence curto e lançados ao fogo umha vez terminado o edifício, ainda que apenas nas suas grandes linhas. No que di respeito à construçom de organizaçons revolucionárias, a experiência mostra que se podem, por vezes, construir sem andaimes (recordade a década de 70). Mas agora nom podemos sequer imaginar a possibilidade de construir sem andaimes o edifício de que temos necessidade.
Nadéjdine nom está de acordo com isto e di: «O lskra crê que em torno desse jornal, no trabalho para ele, se concentrará o povo, se organizará. Mas como lhe é muito mais fácil concentrar-se e organizar-se em torno de um trabalho mais concreto!» Claro, claro: «mais fácil concentrar-se e organizar-se em torno de um trabalho mais concreto» ... Um provérbio russo di: nom cuspas no poço, que da sua água terás de beber. Mas há pessoas que nom se importam de beber de um poço em cuja água já se cuspiu. Em nome deste carácter mais concreto, quantas infámias nom dixérom e escrevêrom os nossos notáveis «críticos» legais do «marxismo» e os admiradores ilegais do Rabótchaia Misl! Até que ponto está todo o nosso movimento abafado pola nossa estreiteza de vistas, pola nossa falta de iniciativa e pola nossa timidez, justificada com os argumentos tradicionais: «Muito mais fácil ... em torno de um trabalho mais concreto!». E Nadéjdine, que se considera dotado de um sentido especial da «vida», que condena com singular severidade os homens de «gabinete», que imputa ao Iskra (com pretensons de sagacidade) a debilidade de ver o «economismo» em toda a parte, que imagina estar muito acima desta divisom em ortodoxos e críticos, nom nota que com os seus argumentos favorece a estreiteza de vistas que o indigna e bebe a água do poço em que mais se cuspiu! Sim, nom basta a indignaçom mais sincera contra a estreiteza de vistas, o desejo mais ardente de elevar as pessoas que se curvam perante ela, se o que se indigna anda a deriva, sem velas e sem leme, e se, tam «espontaneamente» como os revolucionários da década de 70, se aferra ao «terror excitante», ao «terror agrário», ao «toque a rebate», etc. Vede em que consiste esse algo «mais concreto» em torno do qual, pensa ele, «será muito mais fácil» concentrar-se e organizar-se: 1) jornais locais; 2) preparaçom de manifestaçons; 3) trabalho entre os desempregados. Ao primeiro olhar se vê que todas estas cousas som tomadas completamente ao acaso, unicamente para se dizer algumha cousa, porque, qualquer que seja a forma com que forem consideradas, seria umha total incongruência encontrar nelas o quer que seja de especialmente capaz de «concentrar e organizar». E o próprio Nadéjdine di algumhas páginas mais à frente: «Já é tempo de deixar claramente assente um facto: na base fai-se um trabalho extremamente rnesquinho, os comités nom fam um décimo do que poderiam fazer... os centros de unificaçom que temos actualmente som umha ficçom, burocracia revolucionária, promoçom recíproca a general, e assim continuarám as cousas enquanto nom se desenvolverem fortes organizaçons locais». Nom há dúvida que estas palavras, ao mesmo tempo que exageros, encerram muitas e amargas verdades; e será que Nadéjdine nom vê a ligaçom que existe entre o trabalho mesquinho na base e o estreito horizonte dos militantes, o reduzido alcance das suas actividades, cousas inevitáveis dada a pouca preparaçom dos militantes confinados nos limites das organizaçons locais? Terá Nadéjdine, tal como o autor do artigo sobre organizaçom publicado no Svoboda, esquecido que a passagem a umha ampla imprensa local (desde 1898) foi acompanhada de uma intensificaçom especial do «economismo» e do «trabalho artesanal». Além disso, mesmo que fosse possível umha organizaçom mais ou menos satisfatória de «uma abundante imprensa local» (e já demonstramos mais atrás que, salvo casos muito excepcionais, isto era impossível). mesmo nesse caso, os órgaos locais tampouco poderiam «concentrar e organizar» todas as forças dos revolucionários para umha ofensiva geral contra a autocracia, para dirigir a luita única, nom esqueçades que aqui só se trata do alcance «concentrado», organizador, do jornal, e poderíamos fazer a Nadéjdine, defensor da fragmentaçom, a mesma pergunta irónica que ele fai: «Será qué herdamos, de qualquer parte, umha força de 200.000 organizadores revolucionários?». Prossigamos. Nom se pode contrapor a «preparaçom de manifestaçons» ao plano do lskra, pola simples razom de este plano dizer precisamente que as manifestaçons mais amplas som um dos seus fins, mas do que se trata é de escolher o meio prático. Aqui mais umha vez Nadéjdine se enredou, nom vendo que só um exército já «concentrado e organizado» pode «preparar» manifestaçons (que até ágora, na imensa maioria dos casos, tem sido completamente espontáneas), e o que precisamente nom sabemos é concentrar e organizar, «Trabalho entre os desempregados». Sempre a mesma confusom, porque isto também representa umha das acçons militares de um exército mobilizado e nom um plano para mobilizar esse exército; o caso seguinte demonstra até que ponto Nadéjdine subestima, também neste sentido, o prejuízo que nos causa a fragmentaçom, a falta entre nós de umha «força de 200.000 organizadores». Muitos (e entre eles Nadéjdine) censuram o Iskra pola parcimónia de notícias sobre o desemprego, polo carácter casual das crónicas sobre os fenómenos mais habituais da vida rural. É umha censura merecida, mas o Iskra é «culpado sem ter culpa.» Nós procuramos «esticar um fio» também através da aldeia, mas no campo quase nom há pedreiros e há forçosamente que encorajar todo aquele que hos comunique mesmo os factos mais habituais, na esperança de que isto multiplicará o número de colaboradores neste terreono e nos ensinará a todos a escolher, finalmente, os factos realmente reIevantes. Mas há tam jouco material de ensino que, se nom o sintetizamos à escala de toda a Rússia, nom há absolutamente nada que aprender. Nom há dúvida que um homem que tenha, mesmo que seja aproximadamente, as aptidons de agitador e o conhecimento da vida dos vagabundos que observamos em Nadéjdine poderia, com a agitaçom entre os desempregados, prestar inestimáveis serviços ao movimento; mas um homem desta índole enterraria o seu talento se nom tivesse o cuidado de manter todos os camaradas russos ao corrente de todos os pormenores da sua actuaçom para servir de ensinamento e de exemplo as pessoas que, na sua imensa maioria, nom sabem ainda iniciar este novo trabalho.
Todos sem excepçom falam hoje da importáncia da unificaçom, da necessidade de «concentrar e organizar», mas a maior parte das vezes nom tenhem umha noçom exacta de por onde começar e de como realizar esta unificaçom. Todos estarám certamente de acordo em que «se unificássemos» os círculos isolados –digamos, de bairro– de umha cidade seriam necessários para isso organismos comuns, isto é, nom só a, denominaçom comum de «uniom» mas um trabalho realmente comum, um intercámbio de materiais, de experiência, de forças, umha distribuiçom de funçons, nom já só por bairros mas segundo as especialidades de todo o trabalho urbano. Todos estarám de acordo em que um sólido aparelho conspirativo nom cobrirá os seus gastos (se é que se pode utilizar umha expressom comercial) com os «recursos» (subentende-se que tanto materiais como pessoais) de um único bairro e que o talento de um especialista nom se poderá desenvolver num campo de acçom tam reduzido. O mesmo se poderá dizer, entretanto, também da uniom de varias cidades, porque, corno mostrou a história do nosso movimento social-democrata, mesmo o campo de acçom de umha localidade isolada se mostra e já se mostrou enormemente estreito: provámo-lo mais atrás pormenorizadamente com o exemplo da agitaçom política e do trabalho de organizaçom. É necessário, é incondicionalmente necessário, antes de mais, alargar este campo de acçom, criar umha ligaçom efectiva de uniom entre as cidades, com base num trabalho regular e comum, porque o fraccionamento deprime as pessoas que «estám metidas num buraco» (expressom do autor de umha carta dirigida ao Iskra), sem saber o que se passa no mundo, com quem tenhem de aprender, como adquirir experiência de modo a satisfazer o seu desejo de umha ampla actividade. E eu continuo a insistir que esta ligaçom efectiva de uniom só pode começar a ser criada com base num jornal comum que seja, para toda a Rússia, a única empresa regular nacional a fazer o balanço de toda a actividade, nos seus aspectos mais variados, incitando dessa maneira as pessoas a seguir infatigavelmente para a frente, por todos os numerosos caminhos que levam à revoluçom, como todos os caminhos levam a Roma. Se queremos a unificaçom nom só ern palavras, é necessário que cada círculo local dedique imediatamente, suponhamos um quarto das suas forças, a um trabalho activo para a obra comum. E o jornal mostra-lhe imediatamente 126 os contornos gerais, as proporçons e o carácter da obra; mostra-lhe quais som as lacunas que mais se notam em toda a actividade geral da Rússia, onde é que nom existe agitaçom, onde som débeis as ligaçons, quais som as engrenagens do enorme maquinismo geral que este ou aquele círculo poderia reparar ou substituir por outras melhores. Um círculo que ainda nom tenha trabalhado e que nom procura senom trabalho poderia começar já, nom como artesao na sua pequena oficina isolada e que nom conhece nem o desenvolvimento da «indústria» anterior a ele nem o estado geral de determinadas formas de produçom industrial, mas como colaborador de umha vasta empresa, que reflecte todo o impulso revolucionário geral contra a autocracia. E quanto mais perfeita for a preparaçom de cada engrenagem isolada, quanto mais numerosos fossem os trabalhadores isolados que participam na obra comum, tanto mais apertada seria a nossa rede e tanto menos perturbaçons nas nossas fileiras provocariam as inevitáveis prisons.
A ligaçom efectiva começaria já a ser criada através da simples funçom de difusom do jornal (se ele merecesse realmente tal título, isto é, se aparecesse regularmente, umhas quatro vezes por mês, e nom umha vez por mês como as revistas volumosas). Actualmente som raríssimas, e em todo o caso umha excepçom, as relaçons entre as cidades sobre assuntos revolucionírios; entom essas relaçons converteriam-se em regra e, naturalmente, assegurariam nom só a difusom do jornal, mas também (o que é muito mais importante) o intercámbio de experiência, de materiais, de forças e de recursos. Imediatamente o trabalho de organizaçom ganharia umha envergadura muito maior, e o êxito alcançado numha localidade encorajaria constantemente o aperfeiçoamento do trabalho e o aproveitamento da experiência já adquirida por um camarada que actua noutro extremo do país. O trabalho local seria muito mais rico e variado do que é actualmente; as denúncias políticas e económicas que se recolhessem por toda a Rússia alimentariam intelectualmente os operários de todas as profissons e de todos os graus de desenvolvimento, forneceriam dados e ocasiom para conversas e leituras sobre os mais variados problemas, suscitados, além disso, polas alusons feitas pola imprensa legal, polas conversas em sociedade e os «tímidos» comunicados do governo. Cada explosom, cada manifestaçom, seria apreciada e discutida em todos os seus aspectos e em todos os confins da Rússia, fazendo surgir o desejo de nom ficar para trás, de fazer melhor que os outros (nós, os socialistas, nom excluímos de modo nengum toda a emulaçom, toda a «concorrência», em geral!), de preparar conscientemente o que da primeira vez se tinha feito até certo ponto espontaneamente, de aproveitar as condiçons, favoráveis de umha determinada localidade ou de um determinado momento para modificar o plano de ataque, etc. Ao mesmo tempo, esta reanimaçom do trabalho local nom acarretaria a desesperada tensom «agónica» de todas as forças, nem a mobilizaçom de todos os homens, como sucede freqüentemente agora, quando há que organizar umha manifestaçom ou publicar um número de um jornal local: por um lado, a polícia tropeçaria com muito maiores dificuldades para chegar até «a raiz», já que nom se saberia em que localidade haveria que procurá-la; por outro, um trabalho comum e regular ensinaria os homens a fazer concordar em cada caso concreto a força de um ataque com o estado das forças deste ou daquele destacamento do exército comum (hoje quase ninguém pensa, em parte algumha, nesta coordenaçom porque nove décimos dos ataques se produzem espontaneamente), e facilitaria o «transporte» de um lugar para outro nom já das publicaçons, mas também das forças revolucionárias.
Actualmente, na maior parte dos casos, estas forças som sangradas no estreito trabalho local; entom teria-se possibilidade e ocasions constantes para transferir um agitador ou organizador mais ou menos capaz de um extremo para o outro do país, começando com umha pequena viagem para tratar de assuntos do partido e a custa do partido, os militantes habituariam-se a viver inteiramente por conta do partido, a tornar-se revolucionários profissionais, a formar-se como verdadeiros chefes políticos.
E se realmente conseguíssemos que todos, ou umha maioria considerável dos comités, grupos e círculos locais empreendessem activamente o trabalho comum, poderíamos, num futuro muito próximo, estar em condiçons de publicar um semanário que se difundisse regularmente em dezenas de milhares de exemplares por toda a Rússia. Este jornal seria umha parte de um gigantesco fole de umha forja que atiçasse cada centelha da luita de classes e da indignaçom do povo, convertendo-a num grande incêndio. Em torno deste trabalho, em si muito inofensivo e muito pequeno ainda, mas regular e comum no pleno sentido da palavra, concentraria-se sistematicamente e instruiria-se o exército permanente de luitadores experimentados. Sobre os andaimes desta obra comum de organizaçom rapidamente veríamos subir e destacar-se, de entre os nossos revolucionários, os Jeliábov social-democratas; de entre os nossos operários, os Bebel russos, que se poriam à cabeça do exército mobilizado e levantariam todo o povo para acabar com a ignomínia e a maldiçom da Rússia.
É com isto que é preciso sonhar!
* * *
«É preciso sonhar!» Escrevim estas palavras e assustei-me. Imaginei-me sentado no «congresso de unificaçom», tendo à minha frente os redactores e colaboradores da Rabótcheie Dielo, e eis que se levanta o camarada Martínov e, em tom ameaçador, dirige-se-me: «Permita-me que lhe faga umha pregunta: tem ainda a redacçom autónoma o direito de sonhar sem prévio referendo dos comités do partido?» Atrás dele levanta-se o camarada Kritchévski e (aprofundando filosoficamente o camarada Martínov, que, há muito tempo já, tinha aprofundado o camarada Plekhánov), num tom ainda mais ameaçador, continua: «Eu vou ainda mais longe, e pergunto se em geral um marxista tem o direito de sonhar, se nom esquece que, segundo Marx, a humanidade sempre pujo perante si tarefas realizáveis, e que a táctica é um processo de crescimento das tarefas, que crescem com o partido».
Só de pensar nestas perguntas ameaçadoras sinto calafrios, e nom penso senom numha cousa: onde me esconder. Tentarei esconder-me atrás de Píssarev.
«Há desacordos e desacordos –escrevia Píssarev sobre o desacordo entre os sonhos e a realidade. –Os meus sonhos podern ultrapassar o curso natural dos acontecimentos ou podem desviar-se para um lado onde o curso natural dos acontecimentos nom pode nunca chegar. No primeiro caso, os sonhos nom produzem nengum dano, e podem até apoiar e reforçar as energias do trabalhador... Em sonhos desta índole, nada existe que poda deformar ou paralisar a força do trabalho. Bem polo contrário. Se o homem estivesse completamente privado da capacidade de sonhar assim, se nom pudesse de vez em quando adiantar-se e contemplar em imaginaçom o quadro inteiramente acabado da obra que se esboça entre as suas maos, eu nom poderia, de maneira algumha, compreender que móbil levaria o homem a iniciar e levar a seu termo vastos e penosos empreendimentos nas artes, nas ciências e na vida prática. O desacordo entre os sonhos e a realidade nada tem de nocivo, sempre que a pessoa que sonhe acredite seriamente no seu sonho, observe atentamente a vida, compare as suas observaçons com os seus castelos no ar e, de umha maneira geral, trabalhe escrupulosamente para a realizaçom das suas fantasias. Quando existe um contacto entre o sonho e a vida, tudo vai bem».
Pois bem, sonhos desta natureza, infelizmente, som muito raros no nosso movimento. E a culpa tenhem-na sobretudo os representantes da crítica legal e do «seguidismo» ilegal, que se gabam da sua ponderaçom, da sua «proximidade» do «concreto».
[123] Bachibuzuques: tropas irregulares turcas especialmente conhecidas pola sua ferocidade. (N. Ed.)
[124] Camarada Kritchévski e camarada Martínov! Chamo a vossa atençom para esta escandalosa manifestaçom de «absolutismo», de «autoridade sem controlo», de «regulaçom suprema», etc. Olhade: quer apoderar-se de toda a cadeia!! Apressade-vos a apresentar a vossa queixa, tendes já um tema para dous artigos de fundo no n.º 12 da Rabótcheie Dielo.
[125] Martínov ao inserir na R. Dielo a primeira frase desta citaçom (n.º 10, p. 62), omite precisamente a segunda frase, como que sublinhado assim que nom queria tocar na essência da questom ou que era incapaz de a compreender.
[126] Com umha reserva: desde que simpatize com a orientaçom deste jornal e considere útil à causa ser seu colaborador, entendendo-se por isto nom só a colaboraçom literária, mas toda a colaboraçom revolucionária em geral. Nota para a «Rabótcheie Dielo»: esta reserva subentende-se para os revolucionários que apreciam o trabalho e nom o brincar à democracia que nom sepárom as «simpatias» da participaçom mais activa e real.